Hamlet
“HAMLET
Fala: estou pronto pra ouvir.
FANTASMA
E também pra me vingar, depois de ouvir.
HAMLET
O quê?
FANTASMA
Sou o espírito de teu pai
Condenado, por um certo tempo, a vagar pela noite
E a passar fome no fogo enquanto é dia,
Até que os crimes cometidos em meus tempos de vida
Tenham sido purgados, se transformando em cinza.
Se não me fosse proibido
Narrar os segredos das profundas,
Eu te revelaria uma história cuja palavra mais leve
Arrancaria as raízes da tua alma,
E gelaria o sangue da tua juventude,
Fazendo teus dois olhos abandonarem as órbitas
Como estrelas perdidas; enquanto teus cabelos,
Separados em tufos, ficariam com os fios em pé:
Cerdas na pele de um porco-espinho.
Mas esses segredos do sobrenatural
Não são pra ouvidos feitos de carne e sangue.
Escuta, escuta, escuta!
Se você algum dia amou seu pai…
HAMLET
Ó, Deus!
FANTASMA
Vinga esse desnaturado, infame assassinato.
HAMLET
Assassinato!
FANTASMA
Todo assassinato é infame:
Este é infame, perverso – monstruoso.
HAMLET
Me conta tudo logo, pra que eu,
Mais rápido do que um pensamento de amor,
Voe para a vingança.”
Macbeth
“MACBETH – Se feito fosse quanto fosse feito, seria bom fazermo-lo de pronto. Se o assassínio enredasse as conseqüências e alcançasse, com o fim, êxito pleno; se este golpe aqui fosse tudo, e tudo terminasse aqui em baixo, aqui somente, neste banco de areia da existência, a vida de após morte arriscaríamos. Mas é aqui mesmo nosso julgamento em semelhantes casos; só fazemos ensinar as sentenças sanguinárias que, uma vez aprendidas, em tormento se viram do inventor. Essa justiça serena e equilibrada a nossos lábios apresenta o conteúdo envenenado da taça que nós mesmos preparáramos. Ele está aqui sob dupla salvaguarda. De início, sou parente dele e súdito, duas razões de força contra esse ato; depois, sou o hospedeiro, que devera fechar a porta a seus assaltadores, não levantar contra ele minha faca. Esse Duncan, por fim, tem revelado tão brandas qualidades de regente, seu alto ofício tem exercitado por maneira tão pura que suas claras virtudes hão de reclamar, sem dúvida, contra o crime infernal de sua morte. E a piedade, tal como um recém-nado despido, cavalgando a tempestade, ou querubim celeste que montasse nos corcéis invisíveis das rajadas, há de atirar esse ato inominável contra os olhos de todas as pessoas, até que o vento as lágrimas afoguem. Esporas não possuo, para os flancos picar do meu projeto, mas somente a empolada ambição que, ultrapassando no salto a sela, vai cair sobre outrem. (Entra lady Macbeth.) Que há de novo?
LADY MACBETH – Já está no fim da ceia. Por que saístes?
MACBETH – Perguntou por mim?
LADY MACBETH – Pois ainda me fazeis essa pergunta?
MACBETH – Não iremos mais longe neste assunto. Muitas honras me fez ultimamente, havendo eu conquistado áureo conceito junto de toda gente, que desejo mostrar com o novo brilho, não de lado jogar sem mais nem menos.
LADY MACBETH – Encontra-se embriagada a esperança que até há pouco vos revestia? Adormeceu, decerto, desde então e acordou agora, pálida e verde a contemplar o que ela própria começara tão bem? Desde este instante para mim teu amor vale isso mesmo. Tens medo de nos atos e coragem mostrar-te igual ao que és em teus anelos? Queres vir a possuir o que avalias como ornamento máximo da vida, mas qual poltrão viver em tua estima, deixando que um “Não ouso” vá no rasto de um “Desejara”, como o pobre gato de que fala o provérbio?
MACBETH – Paz, te peço. Ouso fazer tudo o que faz um homem; quem fizer mais, é que deixou de sê-lo.
LADY MACBETH – Que animal foi, então, que teve a idéia de me participar esse projeto? Quando ousastes fazê-lo éreis um homem, e querendo ser mais do que então éreis tanto mais homem a ficar viríeis. Lugar e tempo então não concordavam; no entanto desejáveis ajeitá-los; e ora que se acomodam por si mesmos, essa boa vontade vos abate! Já amamentei e sei como é inefável amar a criança que meu leite mama; mas no momento em que me olhasse, rindo, o seio lhe tirara da boquinha desdentada e a cabeça lhe partira, se tivesse jurado, como o havíeis em relação a isso.
MACBETH – Se falharmos…
LADY MACBETH – Falharmos? Bastará aparafusardes vossa coragem até o ponto máximo, para que não falhemos. Quando Duncan se puser a dormir – e a rude viagem de hoje o convidará para isso mesmo – ambos os camareiros de tal modo dominarei com vinho, que a memória, essa guarda do cérebro, fumaça tão-somente será e o receptáculo da razão, alambique. E quando os corpos nesse sono de porco se encontrarem, como se mortos fossem, que de coisas não faremos em Duncan indefeso, que culpas não imputaremos a esses servidores-esponjas, porque fiquem responsáveis por nosso grande crime?
MACBETH – Só deves dar à luz a filhos homens, pois teu vigor indômito só pode filhos homens nutrir. Será aceitável, quando de sangue besuntado houvermos os dois homens que dormem no seu quarto, e seus próprios punhais também usado, que foram eles os autores disso?
LADY MACBETH – Quem ousará pensar de outra maneira, quando rugirmos nossa dor e os altos clamores rimbombarem sobre o morto?
MACBETH – Preparado me encontro e deixo tensos todos os nervos para esse ato horrível. Vamos! Recomponhamo-nos primeiro; coração falso e rosto lisonjeiro.”
Medida por medida
“LÚCIO – Se o duque e os demais duques não entrarem em acordo com o rei da Hungria, todos os duques
cairão sobre o rei.
PRIMEIRO CAVALHEIRO – Que o céu nos conceda paz a todos, menos a do rei da Hungria.
SEGUNDO CAVALHEIRO – Amém.
LÚCIO – Concluís como o pirata que se fez ao mar com a tábua dos dez mandamentos, mas apagou um
deles.
SEGUNDO CAVALHEIRO – “Não roubarás”.
LÚCIO – Sim, esse mesmo.
PRIMEIRO CAVALHEIRO – Está visto! Tal mandamento iria obrigar o capitão e seus asseclas a
desistirem do ofício, porque eles não se faziam à vela senão para roubar. Assim também nós, soldados;
não há um só que aprecie aquela parte da oração do fim das refeições, referente ao pedido de paz.
“SEGUNDO CAVALHEIRO – Nunca ouvi nenhum soldado dizer qualquer coisa a esse respeito.
LÚCIO – Acredito, porque nunca estiveste onde se rendem graças.
SEGUNDO CAVALHEIRO – Não? Uma dúzia de vezes, pelo menos; em diferentes tempos.
PRIMEIRO CAVALHEIRO – Em tempos e metros diferentes?
LÚCIO – Sim, em todos os metros e idiomas.
PRIMEIRO CAVALHEIRO – Creio-o bem, e também em todos os credos.
LÚCIO – Por que não? Apesar de todas as controvérsias, a Graça é sempre Graça. Tu, por exemplo, não
passas de um refinado tratante, apesar de todas as graças.
PRIMEIRO CAVALHEIRO – Somos pano de uma só peça, separados pela tesoura”
Conto do inverno
“TEMPO – Eu, que a todos castigo, alegro e espanto bons e maus, erro muito e, no entretanto, descubro os erros, ora determino usar as asas com bastante tino, sob a forma do Tempo. Por tudo isso, à conta não leveis de mau serviço dezesseis anos haver eu pulado, sem ao menos deixar assinalado quanto passou durante esse intervalo, que em meu poder está, sem grande abalo, dobrar a lei, numa hora muito minha, e hábitos velhos alterar asinha. Aceitai-me qual sou, qual tenho sido antes de o uso vetusto haver nascido e o que ora ainda impera. Estive junto da hora que os viu nascer e do conjunto, também, do que há de vir, pois tudo passa, sendo certeza que eu deixarei baça toda esta luz, tal como na memória dos presentes se encontra a antiga história. Assim, se o permitir vossa paciência, virarei a ampulheta, porque urgência ponha no conto, como se dormindo passado houvésseis esse tempo infindo. Deixando Leontes – que de tal maneira se mostra arrependido da cegueira de seu grande ciúme, que fechado se mantém todo o tempo – transportado, gentis espectadores, para a linda Boêmia imaginai-me, e mais, ainda: deveis estar lembrados que de um filho do rei já vos falara. Assim, com brilho vos direi o seu nome: Florizel. Mas deixando de lado esse donzel, falemos de Perdita que, entretanto, adquiriu tanta graça, que de espanto enche quantos a vêem. Não direi nada do que se vai passar, que à hora azada tudo a saber vireis. Ora o argumento do Tempo é a filha de um pastor e um cento de coisas correlatas. Concedei-me toda vossa paciência. E, então, dizei-me se algum dia já vistes passatempo tão mesquinho. Se não, o próprio Tempo vos diz que almeja, mui sinceramente, que outro não possais ver como o presente.”
Sonho de uma noite de verão
“LISANDRO – Então, minha querida, por que as faces tão pálidas assim? Qual o motivo de murcharem tão rápido essas rosas?
HÉRMIA – Talvez por falta da água que lhes viesse da tempestade dos meus próprios olhos.
LISANDRO – Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e histórias escutado, em tempo algum teve um tranqüilo curso o verdadeiro amor. Ou era grande do sangue a diferença…
HÉRMIA – Oh sofrimento! Nascer no alto e aceitar o cativeiro!
LISANDRO – … ou mui disparatadas as idades…
HÉRMIA – Oh dor! Unir-se a mocidade às cãs!
LISANDRO – … ou tudo os pais, sozinhos, decidiam…
HÉRMIA – Não há maior inferno: estranhos olhos para escolher o amor!
LISANDRO – … ou, quando havia simpatia na escolha, a guerra, as doenças, e a morte, conjuradas, o assaltavam, qual simples som deixando-o, transitório, tão curto corno um sonho, movediço como uma sombra instável, tão ligeiro como raio de noite tempestuosa que, de súbito, rasga o céu e a terra, mas que antes de podermos dizer “Vede!” pelas fauces das trevas é tragado. Tudo o que brilha, assim, em ruína acaba.
HÉRMIA – Se sempre contrariados foram todos os amantes sinceros, é que o próprio destino o determina desse modo. Que nos ensine, pois, a ser pacientes a nossa provação, já que é desdita fatal dos namorados, como os sonhos, pensamentos, suspiros, dores, lágrimas, do pobre amor são companheiros certos.
LISANDRO – Isso consola. Porém, Hérmia, escuta-me: a sete léguas, só, de Atenas mora minha tia, uma viúva muito rica que, por filhos não ter, me considera seu herdeiro exclusivo. Em casa dela, minha Hérmia encantadora, poderemos casar-nos, por ficarmos, então, fora das rigorosas leis dos atenienses. Se me amas, foge da mansão paterna na noite de amanhã. No bosquezinho a uma légua distante da cidade deverás encontrar-me, justamente onde uma vez te vi em companhia de Helena a realizar os sacros ritos de uma manhã de maio.
HÉRMIA – Meu bondoso Lisandro, eu juro pelo mais potente arco do deus Cupido, por sua seta melhor de penas de ouro, pelas meigas pombas de Vênus, pelo que une as almas e confere ao amor virentes palmas, pelas chamas em que se abrasou Dido após abandoná-la o Teucro infido, pelas juras que a todos os instantes violado têm os homens inconstantes, mais do que numerosas, infinitas, do que as que foram por mulheres ditas: amanhã, sem faltar, no grato abrigo de que falamos, estarei contigo.
LISANDRO – Não faltes à palavra. Ai vem Helena.”